Arte com azulejos de papel

Exemplos de azulejos de papel do coletivo Poro

Por Thiago Ventura

Uma parede ricamente decorada com azulejos em estilo português colonial, ladeada por duas colunas ladrilhadas com motivos florais. No chão, uma faixa de azulejos de padrão geométrico, garantindo certa imponência ao lugar. O que poderia ser a descrição de um luxuoso ambiente de algum imóvel ou de uma mostra de decoração de alto padrão, na verdade trata-se de uma casa abandonada nos subúrbios de Belo Horizonte.

É o que propõe o projeto “Azulejos de Papel”, produzido pelo grupo Poro – intervenções urbanas e ações efêmeras. O material é simples. São imagens de azulejos impressas em papel-jornal em tamanho natural: 15×15 centímetros. Os artistas colam as peças em muros de casas e lotes abandonados, dando uma nova leitura da cidade.

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O trabalho é desenvolvido pela dupla criadora do Poro, Marcelo Terça-Nada! e Brígida Campbell. “Nós não cobrimos a fachada inteira. Nós criamos alguns desenhos, parecendo que ela tivesse tido todos aqueles azulejos e que com o tempo foi perdendo”, descreve Marcelo.

Terça-Nada! explica como funcionam as intervenções urbanas:

Desde 2002 a dupla realiza diversos projetos de intervenções artísticas e participaram de eventos em Minas e pelo Brasil. Em Belo Horizonte, o Poro já marcou presença no Verão Arte Contemporânea, FIT, Comida di Buteco, dentre várias outras atividades.

“Como a intervenção está na cidade, as pessoas se deparam com a arte no cotidiano delas. Não é preciso ir a um espaço institucional para ter uma experiência artística: ela se depara com uma situação. Nisso é possível gerar um deslocamento, uma reflexão e fazer as pessoas voltaram e perceber a cidade e ver o que é possível para que ela se torne mais humana, mais criativa”, esclarece.

Confira o site do Poro

A história dos azulejos começou em 2008, num registro fotográfico dos ladrilhos em várias cidades. Eles viram nas peças um rico imaginário popular, seja em São Luís ou em Belo Horizonte, o que foi definido como uma investigação urbana. “Começamos a fazer instalação dos azulejos em casas abandonadas, criando uma relação entre o abandono da casa e essa situação do azulejo, de ser um elemento da arquitetura que está desaparecendo”, explica Marcelo.

Obra aberta

A intervenção dos artistas não fica restrita apenas em Belo Horizonte e os azulejos são até mesmo “exportados”. As peças já foram instaladas em Montreal, Lisboa e Buenos Aires, além de vários estados brasileiros. A arte dos azulejos  é disponibilizada gratuitamente pelo Poro e as pessoas mandam fotos mostrando como ficou a instalação, seja em casa, na rua ou em qualquer ambiente.

Artista conta um exemplo de uso dos azulejos:

“É uma obra aberta. Inclusive teve professores que dão aulas em escolas infantis que usaram o trabalho como exercício para as crianças. O azulejos é um módulo e existem várias manterias de combinar esses módulos e criar padrões gráficos”, exemplifica. “Professores de Arquitetura já usaram para experimentar as aplicações dos azulejos”, completa Marcelo.

Os registros de aplicação dos azulejos de papel são divulgados no site do projeto. A obra também é utilizada durante eventos culturais que a dupla participa.

Próximos trabalhos

O Poro prepara um livro sobre os dez anos de atividade da dupla. Além dos Azulejos de Papel, os artistas já desenvolveram diversos trabalhos, como “Enxurradas de Letras”, com palavras saindo de canos de água e o “Jardins de Celofane”, com flores de papel ornando praças sem grama em pontos espalhados pela cidade.

Segundo Marcelo Terça-Nada!, o grupo participará, em outubro, de um encontro no espaço Oi Futuro sobre arte e novos territórios. “Vamos apresentar um trabalho inédito e surpresa”, promete. (Thiago Ventura/Portal Uai)